Ícaro Iasbeck
Estratégia por trás da operação

Account-Based Selling: vendas e marketing na mesma conta

ABM sem vendas vira mídia segmentada para uma lista que o comercial nunca viu. No account-based selling, marketing, vendas e CS trabalham as mesmas contas-alvo com o mesmo plano, e a liderança mede cobertura, engajamento e pipeline por conta.

17 min de leitura

Account-based marketing, o ABM, é a estratégia em que a empresa escolhe um conjunto fechado de contas-alvo e concentra nelas mensagem, canais e esforço comercial, em vez de esperar que os leads apareçam no funil. Na maior parte das empresas que me procuram com um programa de ABM em andamento, o marketing comprou uma lista, montou públicos de mídia com os nomes dessas empresas e apresenta impressões e cliques, enquanto os vendedores prospectam outras contas e mal sabem que a lista existe. Quando vendas fica fora do plano, o ABM se reduz a uma campanha de mídia segmentada. Account-based selling é o nome que eu uso para a versão que gera negócio: vendas e marketing trabalhando a mesma lista de contas com o mesmo plano, um dono de cada lado para cada conta e indicadores lidos por conta no CRM. Se você lidera marketing, vendas ou Customer Success, as decisões que separam uma versão da outra estão na sua mesa: quais contas entram, quem responde por cada uma e o que a liderança cobra na reunião de pipeline.

No CRM dessas operações, as empresas da lista aparecem com dois ou três contatos, quase sempre de quem baixou algum material, e sem dono comercial. Os negócios abertos nessas contas vieram, em boa parte, de indicação ou de uma prospecção que o vendedor faria de qualquer jeito. A reunião mensal mostra o engajamento da campanha num slide e o pipeline em outro, e ninguém na sala consegue dizer se o primeiro produziu o segundo.

O que é account-based marketing (ABM)?

No funil tradicional, o marketing gera volume de leads, qualifica e passa a vendas os que atendem ao critério combinado. O ABM começa pelo outro lado: a empresa define primeiro as contas que quer conquistar ou expandir e depois decide quem, dentro de cada uma, precisa ouvir o quê. A unidade de planejamento e de medida passa a ser a conta, com as pessoas que participam da decisão. A estratégia compensa em venda B2B de ticket alto, ciclo longo e decisão em comitê, em que perder uma conta grande pesa mais na receita do ano do que perder cem leads pequenos.

O Gartner usa o termo estratégia baseada em contas e a define como a coordenação de experiências relevantes, entregues por todas as áreas que tocam o cliente, para gerar engajamento num conjunto definido de contas (Gartner, 2021). No mesmo comunicado, a consultoria recomenda que o líder de vendas conduza essa estratégia junto com o marketing e avisa que tratá-la como iniciativa só de marketing custa oportunidades de conquista e de expansão. Como a definição inclui todas as áreas que tocam o cliente, o pós-venda entra no desenho desde a escolha das contas.

Por que o ABM vira campanha de mídia segmentada?

A origem está no desenho do programa. O orçamento e a ferramenta ficam com o marketing, que lança a primeira campanha antes de vendas aprovar a lista, e o vendedor recebe um relatório de contas engajadas sem saber por que aquelas empresas foram escolhidas. A meta comercial do trimestre premia o negócio que fecha rápido, e as contas-alvo, grandes e lentas, ficam para depois. Sem dono registrado no CRM para cada conta, o programa passa a ser medido pela métrica que a ferramenta de mídia entrega, e a conta-alvo recebe anúncios de uma empresa cujo vendedor nunca ligou.

O mesmo comunicado do Gartner informa que 48% das organizações que usam estratégia baseada em contas tiveram taxa média de ganho maior. Nas operações que acompanho, o programa que melhora a taxa de ganho tem vendedor e marketing respondendo pela mesma conta, com um plano escrito e revisado em conjunto.

Como escolher as contas-alvo a partir do ICP?

A lista começa no perfil de cliente ideal. Se a empresa já tem o ICP escrito com faixas de prioridade, como descrevo em ICP: perfil de cliente ideal, as contas-alvo saem da faixa A, e a seleção acrescenta filtros que o perfil não cobre. O primeiro é o momento da conta: nova unidade, troca de diretor na área que compra, vagas abertas para a função que a sua solução apoia ou fim de contrato com o fornecedor atual. O segundo é o acesso, quando alguém da sua empresa já conhece alguém lá dentro, seja um ex-cliente que mudou de emprego, um participante de evento ou um parceiro que atende a conta. O terceiro é o potencial de receita em três anos, somando a primeira venda e a expansão provável.

O tamanho da lista sai das horas que vendedor e marketing dedicam às contas-alvo. Eu recomendo fixar a lista por um trimestre, com dono de vendas e de marketing para cada conta registrado no CRM, e escrever a regra de saída: a conta sai quando a dupla a desqualifica com motivo ou depois de dois trimestres sem engajamento, e a vaga vai para a próxima da fila.

Quais são os níveis de ABM: 1:1, 1:poucos e 1:muitos?

Os níveis variam na quantidade de contas e no esforço por conta, e a maioria das empresas combina dois deles. As quantidades da tabela são o ponto de partida que eu uso para dimensionar com a liderança, e cada empresa ajusta pela própria capacidade.

Nível Contas Esforço por conta Personalização Quem trabalha Quando usar
1:1 De 3 a 5 por dupla Alto: pesquisa, plano próprio e reuniões com a liderança da conta Mensagem, oferta e evento desenhados para aquela empresa Vendedor sênior ou KAM, par de marketing, CS se for cliente Receita potencial que paga dezenas de horas de preparo, ou cliente estratégico com expansão grande
1:poucos Grupos de 5 a 15 com o mesmo problema Médio: um plano por grupo, com ajustes por conta Por setor ou por gatilho em comum, com casos do segmento Vendedor ou SDR, marketing de produto e de conteúdo Setor em que a empresa já tem casos e um problema comum
1:muitos Dezenas a centenas da faixa A ou B Baixo, sustentado por automação e mídia Por segmento e por papel, com dados da conta Marketing na mídia e na nutrição, SDR nas contas acima do limiar de engajamento Base ampla dentro do ICP, com ticket que não paga trabalho individual

O erro mais comum é colocar trezentas contas no 1:1, escala em que nenhuma dupla sustenta pesquisa e plano próprio. O 1:poucos costuma ser o melhor começo para quem nunca rodou o método, porque obriga marketing e vendas a sentar sobre um grupo pequeno de contas parecidas e produzir juntos um material que serve a todas.

Como montar o mapa de contatos por conta?

O mapa que descrevo em comitê de compra B2B nasce com a oportunidade, quando já existe um negócio e um interlocutor. No account-based selling, a dupla precisa de um mapa antes disso, que responda em quais áreas a sua solução resolve problema, quem lidera cada uma e com quem a sua empresa já tem algum contato. As fontes estão perto: a base de marketing traz quem baixou material ou foi a um evento, o CRM guarda negócios perdidos com a mesma empresa em anos anteriores, o CS sabe quais clientes têm executivos que trabalharam na conta-alvo, e o LinkedIn completa áreas e cargos.

Cada contato entra no CRM associado à empresa, com área, papel provável na decisão e nível de relacionamento, e a empresa ganha uma propriedade de cobertura: quantas das áreas mapeadas têm pelo menos um contato com quem alguém já conversou sobre o problema. Cada lacuna vira tarefa com dono. O marketing convida para um evento a diretora financeira que ninguém conhece, o vendedor pede ao contato de operações uma apresentação ao gerente de TI, e o CS, quando a conta já é cliente, pede ao patrocinador do projeto atual uma conversa com a área vizinha.

Como montar o plano conjunto por conta?

O plano cabe em uma página por conta no 1:1 e por grupo no 1:poucos. Ele começa pela tese da conta, uma hipótese escrita sobre o problema que a empresa enfrenta, com a evidência pública que a sustenta e o custo estimado para o cliente. A tese orienta a mensagem por papel do comitê: o mesmo problema contado ao diretor financeiro como custo e prazo de retorno, ao gestor de operação como retrabalho e à TI como risco de integração. Se a dupla não consegue escrever a tese, a conta volta para pesquisa antes de qualquer abordagem.

O segundo elemento é a oferta que justifica a primeira reunião. O Gartner chama de oferta de alto valor a interação que entrega à conta um valor de negócio único e oportuno, a ponto de motivar o comprador a se engajar. Em B2B, isso costuma ser um diagnóstico curto com dados do setor, uma comparação com empresas do mesmo porte ou um workshop com a liderança da área, e a demonstração de produto costuma falhar nesse teste. O plano também fixa canais, cadência e eventos, com o marketing aquecendo a conta antes do primeiro contato do vendedor e a sequência multicanal que detalho em cadência de prospecção.

Fase Marketing Vendas CS, se a conta é cliente Registro no CRM
Semanas 1 e 2: preparação Pesquisa, tese e materiais por papel Mapa de contatos e validação da tese Uso atual e áreas sem a solução Lista, donos e contatos com área e papel
Semanas 3 a 5: aquecimento Mídia para os cargos mapeados e convite para evento Conexão e primeiras mensagens personalizadas Conversa com o patrocinador sobre prioridades Interações na empresa e no contato
Semanas 6 a 9: abordagem Caso do mesmo setor e material para a reunião Cadência com a oferta de alto valor Apresentação do vendedor a áreas vizinhas Reuniões e oportunidade com origem na lista
Semanas 10 a 12: revisão Engajamento por conta Avanço das oportunidades e lacunas do comitê Risco da conta e expansão Cobertura e decisão de manter, mudar de nível ou tirar

Quais indicadores medir no ABM?

As métricas de lead medem mal um programa de contas, porque uma conta-alvo pode gerar um único contato novo no trimestre e avançar, se esse contato for a diretora que decide. O Gartner recomenda acompanhar taxa de oportunidade, pipeline das contas-alvo e taxa de ganho por conta. Eu acrescento cobertura e engajamento, que mostram se o programa anda antes de a oportunidade aparecer, e organizo tudo na matriz de métricas de RevOps que as lideranças já leem.

Indicador Como calcular no CRM Área dona O que a liderança lê
Cobertura do comitê Áreas com contato de nível 2 ou mais, sobre as áreas mapeadas Vendas e marketing Se há gente suficiente na conversa para sustentar uma proposta
Engajamento da conta Interações de pessoas diferentes da conta, acima do limiar combinado Marketing Quais contas estão prontas para a abordagem
Taxa de oportunidade Contas com oportunidade aberta, sobre o total da lista Vendas Se a oferta gera reunião que vira negócio
Oportunidades abertas por conta Negócios abertos em cada conta, por produto ou área Vendas e CS Se a conta compra em uma frente ou em várias
Pipeline por conta-alvo Valor em aberto nas contas da lista, comparado ao das contas fora dela Liderança de receita Quanto do trimestre depende do programa
Taxa de ganho por conta Contas com negócio ganho, sobre contas com oportunidade Liderança de receita Se o programa fecha negócio ou só abre conversa

O engajamento é o indicador mais fácil de inflar, e por isso o limiar precisa considerar quantas pessoas diferentes interagiram e de quais áreas. A comparação com as contas fora da lista mostra quanto do resultado viria de qualquer forma.

Qual o papel do CS na expansão das contas-alvo?

Muitas das melhores contas-alvo já são clientes. A empresa que usa a sua solução numa unidade tem outras unidades e áreas com o mesmo problema, e o CS conhece o caminho até elas: sabe quem patrocina o projeto atual, quais áreas pediram acesso e qual diretor mudou no semestre. No account-based selling, o CS ajuda a escolher as contas-cliente da lista e monta com o vendedor o mapa de espaço em branco, cruzando áreas e unidades da conta com os produtos que ela ainda não usa. Para o marketing, entrega os casos que alimentam os grupos de 1:poucos.

Conta com saúde ruim fica fora das ações de expansão até o CS resolver o risco, porque a proposta nova a um cliente insatisfeito costuma antecipar o cancelamento. A regra de quem conduz cada tipo de expansão e de como a comissão se divide, que descrevo em pós-venda B2B, precisa estar escrita antes do primeiro plano conjunto.

Roteiro para a liderança aplicar

  1. Tire a linha de base. Levante no CRM, para as contas da faixa A, quantas têm dono comercial, quantas áreas e contatos cada uma tem e quanto pipeline existe nelas.
  2. Escolha a lista com as três lideranças. Marketing, vendas e CS definem as contas do trimestre, o nível de cada uma e a dupla responsável.
  3. Escreva as regras no acordo entre as áreas. Limiar de engajamento, prazo para o vendedor agir sobre uma conta engajada e regra de saída entram no SLA entre marketing, vendas e pós-venda.
  4. Monte o mapa e a tese de cada conta. A dupla preenche o mapa e escreve tese e oferta antes da primeira ação de mídia.
  5. Configure o CRM depois das regras aprovadas. Lista, nível, donos e cobertura viram propriedades da empresa, e o painel mostra os indicadores por conta e o grupo de comparação.
  6. Instale os ritos. A dupla revisa as contas a cada quinze dias, e as lideranças leem o painel uma vez por mês.
  7. Revise a lista no fim do trimestre. Aplique a regra de saída, mude contas de nível e compare com a linha de base e com o grupo fora do programa.

Por que o ABM depende de marketing e vendas aprenderem juntos?

O account-based selling pede comportamentos que nenhuma das áreas pratica no modelo de leads. O analista de marketing precisa ler o CRM de uma conta e escrever uma tese que um diretor reconheça como o problema dele. O vendedor precisa planejar antes de prospectar, usar o material do marketing e registrar cada interação na empresa, e o CS precisa levar ao plano o sinal de expansão que ouviu numa reunião operacional. Uma plataforma de ABM não ensina esses hábitos, e a dupla que nunca trabalhou junta volta, na terceira semana, cada uma para a própria meta.

Esses hábitos se formam em turma mista, com marketing, vendas e CS praticando sobre contas reais da empresa. Num treinamento in company, eu monto as duplas na sala, cada uma escreve a tese e o mapa de duas contas da lista, e as outras questionam a oferta como faria o diretor da conta. Os gestores participam porque vão conduzir o rito quinzenal, que sustenta o hábito depois que a turma volta para a rotina.

ABM e T&D: o que RH precisa avaliar

Os sinais da necessidade aparecem na reunião de resultado: o marketing apresenta contas engajadas que vendas não reconhece, os vendedores dizem que a lista foi feita sem eles e as contas grandes da faixa A aparecem no CRM sem dono e com um ou dois contatos. Quando as duas lideranças descrevem o mesmo programa de formas diferentes, a lacuna está no método de trabalho conjunto, e uma ferramenta nova repete o problema.

Participam as duplas que vão trabalhar as contas, com vendedores, KAMs, analistas de marketing e as pessoas de CS das contas-cliente, além dos gestores que conduzem os ritos e da pessoa de operações ou de CRM. Para medir, registre antes a linha de base das contas da faixa A, com percentual de contas com dono, cobertura média, taxa de oportunidade e pipeline, e compare depois de um trimestre e, para a taxa de ganho, depois de um ciclo médio de vendas, sempre contra o grupo fora do programa.

Se o seu marketing roda campanhas para uma lista de contas que o comercial não trabalha, ou se as contas grandes da sua base seguem sem plano de expansão, esse é o trabalho do treinamento in company de Revenue Operations. Eu conduzo a formação com marketing, vendas e CS na mesma turma, sobre as contas-alvo e o CRM da sua empresa, e a operação sai com o SLA entre marketing, vendas e CS, que inclui a lista, os níveis e as regras de engajamento, e com a matriz de métricas de RevOps que acompanha cobertura, oportunidades e pipeline por conta.

Perguntas frequentes

O que é account-based marketing (ABM)?

ABM é a estratégia B2B em que a empresa escolhe um conjunto fechado de contas-alvo e concentra nelas mensagem, canais e esforço comercial. A unidade de planejamento e de medida passa a ser a conta, com as pessoas que participam da decisão.

Qual a diferença entre ABM e account-based selling?

Muitas empresas chamam de ABM as campanhas que o marketing conduz sozinho para uma lista de empresas. No account-based selling, vendas e marketing, com o CS nas contas-cliente, trabalham a mesma lista com o mesmo plano, um dono de cada lado e indicadores por conta no CRM.

Quantas contas-alvo escolher?

A quantidade sai das horas que o time dedica ao programa. Como ponto de partida, de três a cinco contas por dupla no 1:1, grupos de cinco a quinze no 1:poucos e uma base maior no 1:muitos, com a lista fixa por um trimestre.

ABM funciona para empresa com time comercial pequeno?

Funciona, com menos contas. Um time pequeno pode começar com dez contas no 1:poucos, um vendedor, uma pessoa de marketing e um rito quinzenal. O que inviabiliza o método em qualquer porte é rodar a lista sem ninguém de vendas responsável por ela.

Como medir o resultado de um programa de ABM?

Meça por conta: cobertura do comitê, engajamento acima de um limiar, taxa de oportunidade, pipeline nas contas-alvo e taxa de ganho por conta. Compare com contas parecidas fora do programa para separar o efeito dele do que aconteceria de qualquer forma.

Como treinar marketing e vendas para trabalhar com ABM?

Forme marketing, vendas e CS na mesma turma, sobre as contas-alvo reais da empresa. Cada dupla escreve a tese, o mapa e o plano de duas contas, as outras questionam como faria o comprador, e os gestores saem com o rito quinzenal desenhado.

  • Account-based marketing
  • ABM
  • RevOps
  • Vendas B2B
Do texto para a prática

Quer levar isso para o seu time?

No treinamento in company de Revenue Operations, a liderança desenha o SLA entre marketing, vendas e CS e sai com a matriz de métricas da operação.

Levar Revenue Operations para o meu time